quarta-feira, 12 de abril de 2017

O Primeiro Homicídio


Génesis 4


Caim e Abel

Vamos meditar na história de Caim e Abel, os dois filhos que Adão e Eva tiveram após a queda. Sim, eles tiveram outros filhos (Génesis 5:4). Não sabemos quantos e nem o nome dos outros. Mas, a Bíblia chama-nos a atenção para estes dois, para nos trazer algumas lições, principalmente sobre aquela verdade de que já falamos; por ser o primeiro da raça humana, o que Adão fez atingiu toda a humanidade. O ser humano já nasce com “o pecado” dentro dele.

Mas esta história também nos mostra que, mesmo ao nascer pecadores, o homem pode contar com a misericórdia de Deus e, através dela ser uma pessoa “justa”, como foi Abel.


O Favorito

Vemos neste texto a alegria de Eva ao dar a luz a Caim: “Com a ajuda de Deus o Senhor tive um filho homem”, disse Ela. Talvez até ali eles só haviam gerado filhas.

Mas finalmente um homem nasceu. Acredito que Adão e Eva, como todos os pais, esperavam um futuro glorioso para aquele menino. Se eles soubessem…

Depois de Caim, nasceu Abel. A Bíblia não mostra nem uma expressão de alegria por parte dos pais em relação ao nascimento de Abel, como aconteceu com Caim. Será que já estava a começar um certo favoritismo por Caim? Parece que sim! Se os pais soubessem os males causados pelo favoritismo não deixariam que isso acontecesse nos seus lares e aprenderiam a distribuir o seu amor igualmente entre os filhos.


Muito Diferentes

Diz a Bíblia que, quando cresceram, Abel tornou-se pastor de ovelhas e Caim agricultor.

Mas a grande diferença entre os dois não era somente a profissão. A maior diferença entre os dois estava no carácter. A Palavra de Deus diz que Abel era um homem bom e correto (1Jo 3.12), enquanto que Caim diz a Bíblia que ele era do maligno, pois as suas obras eram más. Que coisa não?! O Favorito dos pais tinha um mau carácter. Hoje vemos o mesmo acontecer. Muitos filhos em que os pais depositam a sua esperança e confiança, mais tarde são vistos em páginas de jornais, por terem seguido o caminho de Caim.

Eu gosto muito de dizer que os pais devem sempre pedir a Deus que lhes abra os olhos para que eles possam ver o que vai no coração dos seus filhos, pois muitas vezes o amor paterno pode nos cegar. É melhor pedir isso, a tempo de podermos fazer alguma coisa, do que ter uma surpresa desagradável no futuro.


As Ofertas para Deus

Um dia os dois irmãos vieram trazer ofertas perante Deus. Da oferta de Caim está escrito que ele trouxe “Alguns frutos da terra”. Só! A Bíblia não salienta nada de especial na oferta de Caim.

Já da oferta de Abel, está escrito que ele matou o primeiro carneiro do seu rebanho e ofereceu ao Senhor as melhores partes. Era uma maneira de o Espírito Santo mostrar a diferença da atitude dos dois em relação a Deus. Por que será que não está escrito que Caim apanhou dos melhores frutos da terra e ofereceu ao Senhor? Porque provavelmente ele não fez isso! Se não ofereceu ao Senhor o melhor dos frutos da terra, então o melhor ficou para ele mesmo.

Diz a Bíblia que Deus ficou contente com Abel em primeiro lugar e com a sua oferta em segundo. E que rejeitou primeiro Caim e depois a sua oferta. Assim é Deus! Primeiro olha para quem está a ofertar, para o seu comportamento, intenção e carácter. Depois ele olha para a oferta, que na verdade é uma expressão do interior do que oferta. A verdade é que Deus aceita umas ofertas e rejeita outras. Depende é de quem está a ofertar.

Não sabemos qual foi o sinal que Deus deu para mostrar o seu agrado pela oferta de Abel e desagrado pela de Caim. Talvez Ele fez com que descesse fogo dos céus e consumisse a oferta que ele estava aceitando. Talvez…

Sabemos de uma coisa, Deus sempre dá um jeito de mostrar a sua aprovação ou reprovação às nossas obras.


A Reacção

Quando viu que a sua oferta foi rejeitada, qual foi a reacção de Caim? Diz a Bíblia que ele irou-se. Pois é! Ao invés de procurar saber do por quê da rejeição de Deus à sua oferta, para que pudesse melhorar, ele irou-se. Não há outra forma, o que está no coração acaba por aparecer no nosso olhar, no nosso falar, na nossa postura.

Deus disse a Caim: “Porque está com raiva, porque andas chateado?”. Esse “Andas chateado” mostra que aquilo não foi algo momentâneo. Caim deve ter ficado dias e dias com “aquela cara”. Os seus pais, os seus irmãos devem ter perguntado a mesma coisa que Deus. E Caim deve ter respondido o mesmo que respondeu para Deus: Nada! Não é fácil colocar para fora os nossos maus sentimentos. Mas se queremos ser libertos deles, devemos nomeá-los e confessá-los, pois se não fizermos isso, estes maus sentimentos vão crescer e causar enormes estragos nas nossas vidas.

Deus disse a Caim o motivo da rejeição da sua oferta: “Tu agiste mal”. Que palavra dura!

Mas era o que Caim precisava ouvir, Deus estava a dizer a ele (e a nós) que estava atento nele não somente quando ele vinha perante o altar para ofertar. Os olhos de Deus o acompanhavam em todos os momentos.

Deus o advertiu que ele deveria livrar-se daquela ira, pois ela estava a abrir uma brecha para um pecado maior ainda. Deus disse a ele que precisava vencer esta ira para que ela não o levasse a um pecado maior.

É assim que Deus faz. Como um pai amoroso ele vem para nos repreender enquanto o pecado está a querer tomar conta de nós. Ele vem tratar com a semente, antes que ela cresça e dê os seus frutos. Feliz aquele que deixa Deus tratar das sementes más que estão nos nossos corações.


Sangue inocente Fala

Caim não quis saber de mudar. Um dia, chamou o irmão para irem ao campo. Isto era o pecado a tomar forma. O pecado geralmente segue este caminho: uma situação gera um pensamento, o pensamento gera um sentimento, o sentimento gera uma atitude, a atitude vai se desenvolvendo até tornar-se o pecado propriamente dito. Uma vez no campo, Caim fez o que, no seu coração já havia feito, matou Abel. Deixou que a ira crescesse a tal ponto que, deu à luz aquilo que vinha a gerar-se dentro dele há algum tempo.

Ele derramou o sangue inocente do seu irmão sobre a terra e com isso ele acabou por acrescentar mais maldição à terra. Terra esta que ele trabalhava. O sangue inocente derramado sobre a terra faz com que ela seja maldita. Que verdade tão assustadora! Quantos crimes já aconteceram desde então por aqueles que seguem o caminho de Caim. O sangue inocente derramado clama, grita por vingança. Por isso Jesus disse a Pedro: “Guarda a tua espada”. Por que os que vivem pela espada morrerão pela espada (Mateus 26.52). Deus foi quem determinou isso, pois ele escuta o clamor do sangue inocente.


Nome entre os Grandes

Abel foi morto, mas o seu sangue fala connosco até hoje e ele é citado na Galeria dos Heróis da Fé (Hebreus 11.4). Todo o homem bom e correto como Abel, nunca será esquecido por Deus e pelos homens.

Enquanto o nome de Abel é citado entre os nomes dos grandes homens e mulheres que agradaram a Deus, o de Caim é citado junto com aqueles que só trouxeram maus exemplos e desgraça (Judas 11).

Qual o caminho que queremos seguir? Entre quem queremos ser citados. A escolha é nossa.


O Pecado e as Suas Consequências


O Homem Sem Pecado

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança… Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Génesis 1:26-27). Intelectual, moral e fisicamente, Adão e Eva foram feitos à sua imagem.
Deus, que é Espírito, fez Adão como ele mesmo, quando “formou o espírito do homem dentro dele” (Zacarias 12:1). Mas já pensamos que Deus, à sua própria maneira, é capaz de ver, ouvir, cheirar e falar? Pelo menos é o que sugere Salmo 115:3-8. Os nossos atributos físicos, então, também levam algo da imagem de Deus.

Jeová não reteve nenhum bem da humanidade. Junto com poder e domínio, ele preparou um paraíso para ela viver. Ele até andou e falou com o homem numa comunhão irrestrita. Na verdade, o homem foi feito um pouco inferior a Deus e foi coroado de glória e majestade!


O Homem Recebeu o Poder de Escolher

E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás” (Génesis 2:16-17). Henry Morris disse: “Essa foi a prova mais simples que se possa imaginar da postura do homem para com o seu Criador. Será que ele ‘confiaria e obedeceria’ porque ele amava aquele que mostrou tanto amor por ele; ou será que duvidaria da bondade de Deus e se ressentiria do controle dele, rejeitando a sua palavra e lhe desobedecendo?” (The Genesis Record, p. 92). Para deixar clara a necessidade de obedecer, Deus fez acompanhar as mais terríveis consequências à sua ordem “Não comerás.”. “Porque”, diz ele, “no dia em que dela comerdes, certamente morrerás” (Génesis 2:17). Desde o começo, o salário do pecado era a morte (Romanos 6:23).


O Homem Escolheu o Pecado


Deus disse: “Certamente morrerás.”. “Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrerás.” (Génesis 3:1-4). O diabo negou as palavras de Deus apregoando um pecado sem consequências.

Eva jamais pensou em perguntar-se como uma criatura inferior poderia saber mais que Deus! Ela foi crédula o bastante para crer que pudesse ser como Deus (um deus), conhecendo o bem e o mal apenas por comer do fruto proibido. Então, quando ela percebeu que a árvore era boa como fonte de alimento (a concupiscência da carne), que era agradável aos olhos (a concupiscência dos olhos) e a tornaria sábia (a soberba da vida), a tentação se mostrou irresistível. Com essa artimanha de planear algo para enganá-la, o tentador conseguiu seduzi-la.

Meu amigo, fique atento: a velha serpente continua a enganar exactamente da mesma forma hoje! (1 João 2:15-17)


As Consequências do Pecado


Isaías 3:11 afirma: “Ai do perverso! Mal lhe irá; porque a sua paga será o que as suas próprias mãos fizeram”. A primeira coisa que ocorreu com Adão e Eva é que os seus olhos foram abertos e souberam que estavam nus (Génesis 3:7). Viram nos seus corpos o potencial para o mal. A carne e o espírito lutariam pela supremacia no seu interior, e essa guerra mataria cada vida humana (Gálatas 5:17).

Culpados e envergonhados, usaram folhas de figueira para cobrir a sua nudez um do outro (Génesis 3:7). Também, se esconderam entre as árvores da presença de Deus (Génesis 3:8). A presença do Senhor dos exércitos sempre traz terror aos pecadores: eles “se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono, e da ira do Cordeiro” (Apocalipse 6:15-17). Almas impenitentes, atenção: “Horrível cousa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hebreus 10:31).

Sendo afastados da presença de Deus, Adão e Eva, naquele dia, morreram espiritualmente. Pensemos em tudo o que eles perderam! Eva tinha dito no coração: “Vou ser como o Altíssimo”. Ao agir assim, ela perdeu o direito ao esplendor do Paraíso. Decretaram-se maldições sobre ela (3:16), e sobre o homem (3:17-19). Ah, como caíram os valentes!

Ao sofrerem a morte espiritual, Adão e Eva também iniciaram o processo de morte física: “E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida” (Génesis 3:24). Por causa do pecado deles, o homem, a mulher e os filhos de todas as épocas voltariam ao pó: “Em Adão, todos morrem” (1 Coríntios 15:22).

Como no início em Adão e Eva, mais uma vez hoje as palavras de Deus são distorcidas, pois só deveremos adorar a Deus como o nosso Senhor e não a “santos”, “virgem Maria” e outros ídolos feitos pela mão de homens”.
A fé em Deus e no nosso salvador Jesus Cristo e a superstição da crença em “santos” ou outros ídolos feitos pela mão humana”.
Uma batalha entre a dedicação voluntária e consciente à vontade de Deus e os rituais das crenças em ídolos “santos”, pelas chamadas boas acções que nos levam a acreditar que se fizermos boas acções iremos para o céu para estar com Deus.”


terça-feira, 11 de abril de 2017

Adão e Eva e as Roupas da Salvação


Logo após o pecado do homem no Éden, Adão e Eva encontram-se expostos, vulneráveis, humilhados e nus.

Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus;” Génesis 3:7

E eles tentam cobrir-se, pegam folhas de figueira e fazem uma cobertura primitiva.

e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.” Génesis 3:7

A diferença é dramática. Adão e Eva encontram algumas folhas finas de figueira e fazem um tipo muito fraco e primitivo de cobertura, para esconder a sua nudez, enquanto Deus providencia vestimentas “ideais”, feitas de couro, pele de animais, que são capazes de protege-los do frio e das intempéries.

Enquanto o homem buscava apenas uma forma de esconder o seu estado nu, Deus lhe fornece roupas decentes. Enquanto o homem só não queria estar nu em público, Deus age de forma gentil.

Apesar da desobediência e da alienação resultante do pecado, Deus age com ternura e cuidado para com o primeiro casal humano. Deus os veste, os protege, Ele cuida do homem, ainda que pecador.

Hoje há todo um mundo de vestimentas e roupas, mas tudo começou com folhas de figueira. Foi por causa do comer do fruto proibido que o homem e a mulher tomaram consciência da sua nudez. Mas qual seria a natureza dessa nudez? Física ou espiritual?


Era de se esperar que o pecado trouxesse consequências espirituais, entretanto, vemos que Adão e Eva respondem imediatamente no nível físico. Eles tentam cobrir os seus corpos que tinham se tornado vulneráveis; eles ficam envergonhados e humilhados.

Mas e sobre as suas almas? Eles buscaram cobertura, vestimentas espirituais? Com certeza as suas almas haviam sido impactadas, feridas e manchadas pelo pecado. Qual foi a reacção deles?

Ao falar sobre este assunto, o rabino Soloveitchik cita o seguinte texto:

Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me vestiu de roupas de salvação, cobriu-me com o manto de justiça, como um noivo se adorna com turbante sacerdotal, e como a noiva que se enfeita com as suas jóias.” Isaías 61:10

Quando Adão e Eva pecam, eles perdem a roupa da salvação. O resultado é a perda da protecção divina, e do senso de proximidade e intimidade com o Criador. É a partir daí que eles se sentem nus. A reacção deles foi de cobrir os seus corpos.

Aparentemente eles não deram conta da vergonhosa nudez em que estavam as suas almas. No lugar da “roupa da salvação”, que se havia dissipado, eles tentam fazer para si mesmos uma espécie de cobertura que não era suficiente para esconder a sua vergonha.

Deus entra na história e lhes faz uma roupa nova, matando um animal, derramando sangue de um inocente, para que pudesse cobrir o pecado do homem.

Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu;” Apocalipse 3:17

E nós temos este mesmo senso de cobrir, de “criar roupas” e estereótipos, numa tentativa vã de vestir as nossas próprias almas, geralmente por meio de práticas puramente religiosas. Mas só há uma roupa capaz de nos cobrir, e é “de cor vermelha como o carmesim”.

Frequentemente nós queremos cobrir a nossa nudez espiritual, por meio de “penitências”, castigos auto impostos. O que é difícil é aceitar que o sangue do cordeiro foi derramado para destruir a nudez que foi iniciada lá no Éden.

Uma vez lavados nesse sangue, ocorre uma espécie de alquimia celestial, pois somos vestidos com tão brancas roupas, que passam a emitir luz, a luz primordial, que estava no princípio, e que um dia encarnou para ser a luz do mundo.


Há uma tradição muito interessante, encontrada na Midrash:

E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.” Génesis 3:21

Na Torá do rabino Meir, foi encontrado escrito “túnicas de luz”. Embora no texto original esteja escrito ´or עור significando pele ou couro, há uma semelhança notável com a palavra ohr אורluz”.

E a Midrash usa esse paralelismo para ampliar o significado das roupas feitas por Deus, que foram dadas ao homem e à mulher após terem pecado no princípio.

O comentarista Rabbeinu Bahya, concorda que a Peshat – o sentido literal do texto – é que Deus fez roupas que traziam dignidade ao casal pecador.

Entretanto, de acordo com o entendimento de Bahya sobre a Midrash, estas eram como se fossem vestimentas de luz, especificamente a luz fundamental, que foi o primeiro acto da criação por Deus – “haja luz” – a luz que existia antes do sol e da lua.

Rabbeinu Bahya explica que como cada peça de roupa reflecte a arte de quem a criou, esta vestimenta, feita por Deus, também reflectia o divino. A intenção do Criador era de que o homem vivesse eternamente. Se não tivesse desobedecido a Deus, o homem seria imortal, como os anjos.

Comer da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal trouxe a morte, a perda da imortalidade, mas as roupas feitas por Deus simbolizavam uma esperança, a promessa de que a vida eterna seria restabelecida no futuro, mas não sem antes ser pago o preço pela redenção.

Bahya também sugere que o homem não tinha consciência da sua nudez no princípio, porque estava envolvido numa espécie de vestimenta semelhante a que envolveu Moisés no Sinai, e que foi perdida com o pecado.

Quando Moisés desceu do monte pela segunda vez, a Torá descreve uma cena singular:

E aconteceu que, descendo Moisés do monte Sinai trazia as duas tábuas do testemunho em suas mãos, sim, quando desceu do monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, depois que falara com ele.” Êxodo 34:29

Rabbeinu Bahya está aqui sugerindo que algumas vezes, as palavras ´or “pele”, e ohr “luz”, podem ser conectadas. Esta é a significância do brilho da pele do rosto de Moisés.

A proximidade e a intimidade que Moisés teve com Deus suscitou nele a luz primordial, a luz que vestia o homem e a mulher no princípio, a luz da salvação, aquela mesma que o nosso Mestre veio restaurar.

Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem m segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” João 8:12

Moisés pôde experimentar as roupas da salvação, sendo envolvido com a Shekhinah (a divina presença), a protecção espiritual que estava em Adão e Eva antes de terem pecado, vestidos de luz e verdade. Mas o homem pecou, perdeu a preciosa luz, ao ficar na escuridão deformadora do pecado.

Vivendo o mundo pós-pecado, nós precisamos encontrar as vestimentas de luz e verdade para as nossas almas. Na sua misericórdia, Deus olhou para o homem com amor, e fez-lhe uma vestimenta nova.

Ao derramar o sangue de um animal inocente para vestir o homem, já apontava para o sacrifício vicário de Jesus, que derramou o seu sangue inocente, para nos vestir novamente com a verdadeira luz da salvação.

Por isso as nossas almas se regozijam muitíssimo no Senhor, pois não fomos abandonados, Ele nos veste com as roupas da salvação, cobriu de uma vez por todas a nudez do pecado, nos fez íntimos, filhos de Deus outra vez.


Adão e Eva – Mensagem do Primeiro Casamento Bíblico


Deus cria todas as suas criaturas em pares – Macho e Fêmea – excepto o homem. Somente depois que Adão é criado em solidão é que Deus declara: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idónea [eizer k’negdo, em hebraico] para ele.” Génesis 2:18.

Deus traz os animais até Adão para que ele lhes dê nomes. E nesse processo, como já previsto, o homem não é capaz de encontrar uma companhia pessoal, dentro do reino animal.

Deus, então, faz com que caia sobre Adam אדם [Adão] um sono "pesado" e forma Chava חַוָּה [Eva], de uma porção do corpo de ha-adam, de sua costela, encerrando carne em seu lugar. Quando acorda, Adão proclama: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.” Génesis 2:23-24.

O primeiro homem agora toma consciência de que finalmente encontrou a companhia que tanto procurava. Esta é a mensagem que a Torah nos traz sobre o primeiro casamento bíblico.

Porém há questões muito mais profundas nesta passagem, que parecem estar intimamente ligadas ao sentido das palavras escolhidas pelo seu autor. Há perguntas que podemos fazer, neste texto, que trazem significâncias belíssimas para o amor, a união sagrada e eterna entre dois seres.

Deus quer aqui ensinar-nos algo realmente profundo, o real significado do casamento bíblico, a volta ao estado original, quando Adão e Eva formavam um só corpo, uma só carne.


É interessante ver que um Deus Todo Poderoso não pode chegar a perceções atrasadas. Obviamente que Deus sabe desde o princípio que o homem precisava de companhia. Porque, então, Deus não criou Eva, ao mesmo tempo que Adão?

O termo em hebraico que Deus usa para descrever a primeira mulher, uma ajudadora idónea, [em hebraico eizer k’negdo], é também profundamente intrigante, e até mesmo Auto contraditório.

A palavra eizer significa ajuda, enquanto que k’negdo – que vem da raiz hebraica neged – significa em oposição.

Assim, porque Deus criaria uma “ajuda em oposição” a Adão? Qual a mensagem que estas palavras nos querem passar, no que diz respeito à parceria estabelecida entre o homem e a mulher? E finalmente, porque Deus põe os animais diante de Adão para serem nomeados, justamente neste contexto de percepção da solidão do homem?

Deus sabe que Adão não irá encontrar companhia no reino animal. O que Ele quer que aprendamos com isso, qual seria então o propósito deste exercício?

Há numerosas abordagens sobre o isolamento original do homem. Diversos autores já se debruçaram sobre essa matéria, mas um dos estudos dos que mais possuem autoridade sobre o assunto afirma, como diz o Talmud, que Deus originalmente criou o homem d’yo partzuf panim, “com duas faces”.

Isto é, Eva estava desde o princípio, dentro de Adão, a aguardar o momento de ser formada. Quando Deus cria Eva, Ele efectivamente separa dois seres, que originalmente eram apenas um. Isso nos leva a uma idéia profunda, extraída daquilo que parece ser uma simples história:

Adão e Eva eram, na sua forma original, apenas um. Quando eles se reúnem e se casam, eles retornam ao seu estado original, unificando-se novamente, voltando a ser “uma só carne”. Todo o casamento, toda a união entre homem e mulher, deste ponto de vista, é efectivamente um retorno ao significado original da vida.

Outra fascinante lição moral extraída pela Mishna (a parte mais antiga da tradição oral), aborda a solidão original do homem. O modo da criação de Adão pode ser entendido como um processo educacional sobre ele mesmo e sobre a sua forma de se relacionar com os outros.

E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idónea.” Génesis 2:20.

Diferente das outras criaturas, o homem precisa aprender o valor da companhia e da verdadeira amizade. Isto porque a qualidade da companhia humana se diferencia de todos os tipos de relacionamentos estabelecidos no mundo ao redor de nós.

Os nossos relacionamentos têm possibilidades de um aprofundamento sem paralelos. Nós temos a habilidade de transcender o apego puramente físico e ir para além, estabelecendo verdadeiras ligações emocionais, que podem enriquecer e transformar as nossas vidas.

Há uma ressalva, porém, de que o estabelecimento dessas ligações é baseado no aprendizado, no sacrifício e no assumir de riscos.

Primeiramente, os relacionamentos humanos são baseados no compartilhar, e compartilhar não se torna em prática de uma forma fácil ou natural. Uma criança tem de ser ensinada a compartilhar, a abrir mão de um pouquinho do seu espaço e do seu “Eu”.

E o mais difícil é a vulnerabilidade inerente à proximidade do contacto humano. Quanto mais próximos nos tornamos uns dos outros, maior se torna o potencial para conflitos. Ninguém pode nos ferir tão profundamente como aqueles que são próximos de nós, e que nos conhecem bem.
Deus cria Adão sozinho, porque ele precisava entender que a solidão não era boa. Ele precisava sentir o vazio causado pelo seu isolamento. Somente com o sentimento desse vazio, é que Adão pode aprender a necessidade do compartilhar com o outro.

Adão tem de aprender que a escolha do relacionamento humano, com todas as suas consequências e conflitos e sacrifícios, é melhor do que uma vida de solidão e isolamento.

Deus, assim, traz os animais para que o homem lhes desse nomes. Nomeá-los requeria uma maior compreensão da natureza intrínseca dos seres. Adão vê que cada animal tem a sua companhia correspondente. Ele também percebe que o tipo de relacionamento que via no reino animal, não era adequado para preencher as suas necessidades.

Adão anda em busca de algo muito maior e muito mais profundo. Somente quando Adão chega a este nível de entendimento e percepção, é que Deus procede com a criação de Eva. A narrativa da criação de Adão e Eva firma-se como uma lição monumental concernente à proximidade das relações humanas.

Quando entendemos e estamos dispostos a aceitar o trabalho e o sacrifício necessário ao estabelecimento de um profundo relacionamento, quando criamos relacionamentos baseados na confiança mútua, aí que atingimos o tipo de companhia que é única para a espécie humana: A santidade do casamento.

É interessante também analisar a contradição implícita da frase Ajudadora Idónea – eizer k’negdo, ajuda em oposição.

Uma das abordagens para eizer k’negdo, sugere, se nós seguirmos a interpretação da pashut pshat (o significado simples e literal), que esta é uma, de muitas frases que na Torah parecem contraditórias, mas que quando propriamente entendidas, reflectem significantes pensamentos filosóficos e reais.

A frase, tomada como um todo, brilhantemente reflecte o delicado equilíbrio que é essencial a um casamento saudável. No casamento, cada parte deve permanecer em íntima comunhão, entretanto, não se pode perder a individualidade que é essencial a cada ser.

Marido e mulher tem que aprender a assistir e ajudar um ao outro de forma cooperativa, mas sem um se sobrepor ao outro. Uma “eizer k’negdo”, “ajuda em oposição”, é aquela que tem uma visão de uma perspectiva oposta, mas que vem para colaborar.

É sempre muito ajudador ter uma perspectiva diferente das coisas. E o casal tem de aprender a aproveitar esta percepção “oposta” que cada um pode ter do mesmo tema, para poder formar uma opinião comum, não unânime, mas que mostre que há mais de uma forma de se fazer a mesma coisa, que “há mais de um caminho para se chegar até determinado lugar”.

Essa visão dualista, de duas perspectivas diferentes que um casal pode ter, é uma arma poderosíssima, uma ajuda sem precedentes se for compreendida e aproveitada.

Deus fez a mulher não para concordar cegamente com o homem, mas para contribuir para o bem da relação, ao fornecer uma visão de uma perspectiva “oposta” das coisas, como fonte de mais de uma interpretação do mundo, uma visão de outro “ângulo”.

O Rabino Rashi, imediatamente notou que a observação da tradição oral, para estas duas palavras, pode encerrar também duas escolhas. As palavras eizer (ajuda) e k’negdo (oposição) podem ser mutuamente exclusivas.

Quando o homem e a mulher têm sucesso em construir um casamento, eles vivem num mundo de eizer, de ajuda mútua. Por outro lado, se eles falham, então viverão num mundo de k’negdo, de oposição.

Este mesmo sentimento está presente nos ensinamentos do Antigo Testamento, para as palavras ish, “homem” e isha, “mulher”. Na escrita em hebraico, estas duas palavras diferem uma da outra por apenas duas letras: um yod יe um hei ה, letras que usamos para escrever o nome de Deus.

Isto sugere que quando Deus está presente num casamento, o homem e a mulher também estão. Mas se retirarmos de ish e isha as letras do nome de Deus, fica a restar uma combinação (as letras aleph e shin) onde lemos a palavra aish אש (incêndio). Quando Deus não está presente numa relação, ela torna-se potencialmente explosiva.

Duas simples e aparentemente palavras contraditórias, faladas por Deus para descrever o primeiro casamento, aplicam-se para resumir o delicado equilíbrio que se encontra em casamentos saudáveis.


Enquanto que muitas pessoas buscam cada vez mais envolvimentos superficiais, o casamento fala de relacionamentos profundos, que só podem ocorrer quando Deus é este factor muito forte de equilíbrio entre o homem e a mulher.

A Primeira Mulher - Eva


O nome Eva significa “vivente”; pelo visto, palavra aparentada com o verbo hebraico hhayáh, “viver”. A primeira e última mulher das obras criativas terrestres de Deus, de que há relato.

O Criador sabia que não era bom que o homem continuasse só. Todavia, antes de passar a criar a mulher, Deus trouxe ao homem diversos animais da terra, bem como criaturas voadoras. Adão deu-lhes nomes, mas não achou nenhuma ajudadora entre eles. Foi então que Deus fez com que Adão caísse num profundo sono, removeu uma costela do seu lado, e, depois de ter fechado a carne, construiu uma mulher da costela retirada do homem. Sem dúvida, informado por revelação directa de Deus, seu Criador e Pai, de como a mulher veio à existência, Adão teve prazer em aceitá-la como sua esposa, ao dizer: “Esta, por fim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne”, conforme até os seus próprios sentidos lhe evidenciavam. Adão chamou-a sua esposa, o seu complemento, de ‘ishsháh (mulher, ou, literalmente, homem feminino), “porque do homem foi esta tomada”. (Génesis 2:18-23). Daí, Deus proferiu a sua bênção paternal sobre os dois: “Sede fecundos e tornai-vos muitos, e enchei a terra, e sujeitai-a”. Deviam ter em sujeição também a criação animal. (Génesis 1:28). A mulher, por ser obra das mãos de Deus, era perfeitamente adequada para ser complemento do seu marido, Adão, e também para ser mãe.


1. Engano e Desobediência.

Veio então o dia em que a mulher, quando não estava na companhia do seu marido, encontrou-se perto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal. Ali, uma cautelosa e humilde serpente, usada por um espírito invisível como porta-voz visível, perguntou com aparente inocência: “É realmente assim que Deus disse, que não deveis comer de toda árvore do jardim?” A mulher respondeu correctamente, sem dúvida instruída assim pelo seu marido, o qual era de uma só carne com ela.

Mas, quando a serpente contradisse a Deus e declarou que a violação da ordem de Deus resultaria em ser igual a Deus, sabendo o Bem e o Mal, a mulher começou a encarar a árvore dum ponto de vista diferente. Ora, “a árvore era boa para alimento e… algo para os olhos anelarem, sim, a árvore era desejável para se contemplar”. Além disso, a serpente dissera que Eva seria como Deus, se comesse da árvore. (Vejamos 1Jo 2:16). Totalmente enganada pela serpente, e com o forte desejo das perspectivas relacionadas com o comer do fruto proibido, ela tornou-se transgressora da lei de Deus. (1Ti 2:14). Como tal, chegou-se então ao marido e induziu-o a se juntar a ela na desobediência a Deus. Adão escutou a voz da sua esposa. – Génesis 3:1-6.

O efeito imediato da transgressão deles foi a vergonha. De modo que usaram folhas de figueira, a fim de fazer para si coberturas para os lombos. Tanto Adão como a sua esposa foram esconder-se entre as árvores do jardim quando ouviram a voz de Deus. Quando directamente interrogada por Deus sobre o que tinha feito, a mulher declarou que ela havia comido por ter sido enganada pela serpente. Ao proferir sentença sobre ela, Deus indicou que a gravidez e o parto seriam acompanhados por maior dor; ela teria desejo ardente do seu marido e ele a dominaria. – Génesis 3:7-13, 16.

Depois de terem violado a lei de Deus, Adão, segundo se relata, chamou a sua esposa de Eva, “porque ela havia de tornar-se a mãe de todos os viventes”. (Génesis 3:20). Antes de expulsar Adão e Eva do jardim do Éden para enfrentar as dificuldades do solo amaldiçoado, Deus lhes mostrou benignidade imerecida por prover-lhes vestes compridas de peles. – Génesis 3:21.


2. Um filho “com o auxílio de Deus”.

Por ocasião do nascimento do seu primeiro filho, Caim, fora do Paraíso, Eva exclamou: “Produzi um homem com o auxílio de Deus.” (Génesis 4:1). Eva é a primeira pessoa de que se relata ter usado o nome de Deus, ao indicar que o nome Deus era conhecido aos primeiros humanos. Mais tarde, ela deu à luz Abel, bem como outros filhos e filhas. Quando Adão tinha 130 anos de idade, Eva deu à luz um filho a quem chamou de Sete, ao dizer: “Deus designou outro descendente [lit.:semente] em lugar de Abel, visto que Caim o matou.” Ela podia correctamente expressar-se assim tanto por ocasião do nascimento de Caim como o de Sete, porque Deus dera a ela e a Adão as faculdades reprodutivas, e, em razão da benignidade imerecida de Deus, de não os matar imediatamente quando transgrediram a ordem Dele, ela pôde dar à luz. Com o nascimento de Sete encerra o registo de Génesis referente a Eva. – Génesis 4:25; 5:3, 4.


3. Personagem Real


Que Eva realmente viveu e não era uma personagem de ficção é confirmado pelo próprio Jesus Cristo. Quando interrogado pelos fariseus a respeito do divórcio, Jesus chamou à atenção o relato de Génesis relativo à criação de macho e fêmea. (Mateus 19:3-6). Além disso, há as palavras de Paulo dirigidas aos Coríntios, expressando temor de que a mente deles fosse de algum modo corrompida, “assim como a serpente seduziu Eva pela sua astúcia”. (2Co 11:3). Daí, ao considerar o lugar correto da mulher na congregação cristã, Paulo apresenta como motivo de não se permitir “que a mulher ensine ou exerça autoridade sobre o homem” o facto de que Adão foi formado primeiro, e que ele não foi enganado, “mas a mulher foi totalmente enganada e veio a estar em transgressão”. – 1Ti 2:12-14.

A Origem da Queda do Homem – Eva, a Serpente e o Fruto Proibido

A Origem da Queda do Homem

“E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” Génesis 2:16-17.
E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus:
Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais (do hebraico pen-namut פן־נמות)" Génesis 3:2-3.

Sempre que o Génesis repete uma conversação ou um evento, é motivo para vermos uma sinalização importante no texto. Tendo em consideração que tudo o que foi escrito na Bíblia tem um propósito, podemos acreditar que existe uma camada de interpretação muito poderosa por detrás das redundâncias bíblicas.

Assim, se compararmos a ordem que Deus deu a Adão, para não comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, com a resposta que Eva deu à serpente, teremos bons e ténues indícios da origem da queda do homem, que nos trazem importantes ensinamentos e significantes mensagens.

A Torah regista duas versões do mandamento divino dado ao homem. Primeiramente, encontramos este mandamento na sua forma original, quando Adão o recebeu directamente do Criador. Mais tarde, na história da criação, Eva o repete para a serpente, revelando algumas inconsistências no seu entendimento.

Com isso, qual seria a necessidade dessas duas versões serem registadas com todos os detalhes? Não seria muito mais simples a Torah afirmar “e Eva repetiu o mandamento divino para a serpente”?

Quando as duas versões do mandamento são comparadas, surge uma série de impressionantes variações:


O Mandamento Divino e a Versão de Eva:
Deus:
Eva:
De toda a árvore do jardim comerás livremente
Do fruto das árvores do jardim comeremos
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás
Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis
porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás
para que não morrais (do hebraico pen-namut פן־נמות)



Não temos neste estudo, nenhuma intenção de influenciar uma opinião injusta em relação à Eva, mas devemos notar nesta passagem que houve uma quebra na comunicação entre Deus e o homem, onde não está muito claro em que altura dos acontecimentos possa ter ocorrido.

Deus originalmente ordenou a Adão, com relação à Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, antes da criação de Eva. É de se assumir que foi Adão quem instruiu a mulher sobre o mandamento divino. A Torah deixa um tanto vago esse processo de comunicação. Em que ponto se dá a incompreensão da palavra de Deus?

Foi Adão quem não compreendeu a ordem divina? Ou ele não conseguiu passá-la adequadamente a Eva? Ou foi Eva quem falhou em entender o significado moral das palavras do Criador?

Ao não esclarecer o ponto onde há esse ruído na comunicação, a Torah transmite uma lição adicional. A comunicação é ao mesmo tempo uma importante e delicada tarefa. Nós devemos ser precavidos com as mensagens que damos e recebemos, com as palavras que saem da nossa boca.

Nehama Leibowitz, na sua marcante obra, Studies in Bereishit (Estudos em Génesis), pontua magnificamente que Eva comete o erro trágico de acentuar a parte negativa da mensagem divina, e de negar a positiva. Deus permitia que Adão e Eva comessem de todas as árvores do jardim.

Aos olhos de Eva, porém, esta permissão extensiva era muito pouco. Existe uma árvore “que está no meio do jardim”, que permanece além do seu alcance. Não é somente proibido comer dela, como também tocá-la (proibição inventada por ela mesma ou por Adão).
O homem falha quando não aprecia, nem percebe a vantagem do vasto e maravilhoso mundo que está à sua disposição. Quando damos a nossa atenção somente àquilo que é proibido, ou que permanece longe do nosso alcance, aí é que caímos na armadilha reflectida neste texto.

A serpente, na sua fala, conduz justamente a conversa com Eva nesta direcção, para fazê-la ver apenas aquilo que não podia fazer ou possuir. A parte da mensagem fabricada por Eva, “nem nele tocareis”, era a acentuação do negativo.

Logo que Eva “tomou do seu fruto”, e vendo que nada lhe havia acontecido (pois Deus nunca tinha falado em morte por se tocar naquele fruto), então prossegue e consuma o acto, comendo-o.

Este evento, como diz a tradição oral, confirma o dito do rei Salomão: “Não acrescente nada às palavras de Deus!”


Ainda, ao examinar todas as diferenças entre as versões de Eva e aquela ouvida por Adão no princípio, no que se refere à Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, outra grande diferença começa a vir à tona.

O mandamento repetido por Eva à serpente, é mudado no coração da sua natureza moral. A intenção original de Deus parece ser perdida nas palavras da primeira mulher. Deus especificamente refere-se à árvore como “a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”.

Eva expressa-se de forma bem diferente. Para ela, não existia mais uma “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”, mas simplesmente uma “árvore que está no meio do jardim”. No seu ponto de vista, Deus arbitrariamente tinha plantado uma árvore perigosa no jardim do Éden, que não parecia ser diferente das outras, mas ainda assim o seu fruto era proibido.

Esta conclusão dá-se pela falta de qualquer indicação da natureza daquela árvore, nas palavras de Eva. Não reconhecendo que era a Árvore que tinha capacidade de transmitir o conhecimento do bem e do mal, Eva ignora que Deus tenha os seus motivos para a proibição.

E mais importante ainda, ela não entende que a proibição era uma demanda de Deus sobre o comportamento humano, e não um aviso sobre uma árvore cujos frutos eram venenosos. Ela prefere mais acreditar que o perigo é arbitrário, criado por um “Deus caprichoso”, do que confrontar a realidade de uma “Deidade que pensa” e que faz demandas ao seu comportamento.

E isto é reflectido também nas outras duas maiores distorções da versão de Eva da proibição. “Não podemos comer da árvore, apenas. Não podemos até mesmo tocá-la”. A árvore é “tão perigosa que devemos evitá-la a qualquer custo”.

De acordo com a tradição oral (a Midrash), a serpente vê nisso, uma abertura, e a usa contra a mulher, demonstrando que não havia tanto perigo assim na Árvore do Conhecimento. Uma vez que o perigo desaparece na mente de Eva, então não havia mais motivo para não comer do fruto proibido.

O que começou como um mandamento racional e moral, torna-se, na mente de Eva, em medo supersticioso. Quando a superstição e o medo se vão, a proibição juntamente desaparece.

A evidência mais profunda de que Eva entendia a Árvore como sendo perigosa, pode ser vista, de acordo com o rabino espanhol Rambam (Moisés Maimônides, 1135-1204), no verso seguinte:

E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento” Génesis 3:6.

Porque, questiona Rambam, a Torah precisava dizer que Eva viu que a Árvore era atraente em todos esses níveis? Que diferença isso faria?

O Génesis está a indicar que Eva, originalmente, pensava que o fruto da Árvore do Conhecimento era venenoso. Quando ela vê que aparentemente não era, que ao invés, parecia desejável, ela prossegue e come dele.

Ela por não entender as significâncias que estavam na ordem divina, começa a fabricar os seus próprios conceitos e conjecturas, numa tentativa vã, a achar que os motivos de Deus eram aparentemente sem sentido. Mas os caminhos de Deus são profundos demais para o intelecto humano tentar decifrá-los.

Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.” Isaías 55:9.

A descrição da possível consequência do comer do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, por Eva, é também significante. Deus disse “porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Eva simplesmente afirma, “para que não morrais (pen-namut פן־נמות)".

Deus define a morte como uma consequência moral do acto de se comer do fruto proibido (consequência moral da desobediência à palavra de Deus). Eva via a morte como um potencial e possível perigo, mais do que como uma consequência moral por ter desobedecido a Deus.

As raízes do pecado estavam presentes no jardim do Éden. Do momento em diante que Eva fala com a serpente, uma guerra é iniciada. Era a luta entre a e a superstição, a batalha entre a dedicação voluntária e consciente à vontade de Deus e o ritual cheio de proibições automatizadas, que não chegam ao entendimento nem à realização da consciência humana.

Esta é a luta entre o que Deus quer de nós e aquilo que nós queremos-lhe oferecer. É uma batalha que vem a acontecer através dos tempos de todas as gerações, o homem não compreende o que Deus deseja de nós.

Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração” Mateus 13:19.

Deus está claramente, por toda a Bíblia, a dizer, a afirmar que o que ele quer é nos ter em possessão eterna, Deus quer a nós mesmos, todo o nosso ser, toda a nossa alma. Repetidamente, meio que amedrontados com tamanha demanda, nós tentamos oferecer-lhe alguma outra coisa.

Foi assim com Caim e Abel, e com as suas ofertas. Deus não aceitou a oferta de Caim, não por causa da oferta em si, mas por causa do próprio Caim, da sua atitude de querer seduzir a Deus pela beleza de um altar multicolorido. A intenção do coração de Caim não era boa.

Deus estava mais interessado no próprio Caim do que na sua oferta. Mas Caim prefere matar o seu irmão Abel do que se confrontar consigo mesmo, num exame da sua própria consciência, para reflectir as suas intenções e vontades, e se voltar para Deus de todo o coração, com todas as suas forças, com sinceridade.

Para Caim, era muito mais fácil fazer uma oferenda linda! Mas Deus não quer oferendas, Deus quer o ser humano por completo!


Séculos depois, a recém-nascida nação Israelita está aos pés do monte Sinai. A grandeza da revelação divina é manchada pelo pecado ao envolver a adoração ao bezerro de ouro. Um comportamento difícil de se entender. Como pode um povo que estava na presença do Deus vivo, ao ver a sua majestade e poder, cometer tamanho acto de idolatria?
Uma breve análise da passagem do bezerro de ouro vai nos ajudar a compreender o engano de Eva, e a natureza da sua queda.

A adoração ao bezerro de ouro não acontece em um “vácuo”, de forma súbita, nem de uma hora para a outra. É na verdade, a continuidade de um padrão de comportamento estabelecido no momento que a revelação se inicia.

Quando Deus se revela ao seu povo, eles ao invés de desejarem uma proximidade maior com Ele, respondem ao Seu chamado com uma insólita regressão.

E todo o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o sonido da buzina, e o monte fumegando; e o povo, vendo isso retirou-se e pôs-se de longe. E disseram a Moisés: Fala tu connosco, e ouviremos: e não fale Deus connosco, para que não morramos [pen-namut פן־נמות]” Êxodo 20:18-19.

Note que a frase pen-namut פן־נמות, “para que não morramos”, é exactamente a mesma usada anteriormente por Eva quando descrevia, para a serpente, as potenciais consequências de se comer do fruto proibido. Como podemos perceber, esta frase indica o medo de um iminente e arbitrário perigo.

A reacção dos filhos de Israel contrasta profundamente com a disposição que tiveram algumas semanas mais cedo, após a destruição do exército egípcio no Mar Vermelho. Lá, quando estavam às margens do Mar Vermelho, a revelação do poder de Deus foi recebida com canções, danças e alegrias; não com medo ou querendo recuar.

E porque então, eles reagem de uma forma tão diferente agora nesta passagem do Sinai?

A resposta está encravada na monumental diferença entre estes dois eventos: A mensagem do Mar Vermelho é “Deus cuidará de vós”. Já a mensagem do Sinai é “Deus requer algo de vós”.

Defrontados com demandas sobre o seu comportamento, o povo busca mais pelo conforto pessoal do que pelo confronto por si mesmo. Eles desesperadamente tentam se distanciar de Deus e das suas demandas, ao pedir que Moisés falasse com eles, no lugar de Deus.

E quando Moisés demora, além das expectativas, para descer do monte Sinai, o medo de que Deus voltasse a fazer demandas, ao falar directamente ao povo, se torna esmagador. O bezerro de ouro é criado não para substituir Deus, mas para substituir Moisés, e servir como intermediário entre a nação Israelita e Deus. Assim como hoje arranjamos intermediários, “virgem Maria e os outros santos” entre os homens e Deus.

Dessa forma, os encargos de uma comunicação próxima e directa com o divino podiam ser evitados. Tragicamente, a nação Judaica caiu na mesma armadilha, estabelecida primeiramente no jardim do Éden.

Muitas vezes não compreendemos a vontade de Deus, expressa na sua palavra. E partimos para uma religiosidade extremada, quem sabe cheia de superstições e medos. Mas o medo falha em nos manter longe do pecado, isso já foi demonstrado diversas vezes na história da humanidade.

O que realmente pode nos ajudar a continuar pelo caminho da rectidão, é não outro, senão o entendimento e a compreensão da palavra de Deus. E a palavra nos impele a uma reflexão profunda, num verdadeiro conforto em nós mesmos, para um auto-exame da nossa consciência.

Para descobrirmos, enfrentarmos e corrigirmos as nossas falhas de carácter. Com certeza temos muitas. Mas mudar a nossa trajectória de vida, melhorar, buscar uma nova prática de vida dá trabalho e exige esforço. Razão pela qual muitos desistem de o fazer.

Corrigir, examinar aquilo que mais nos desafia em nós mesmos é muito assustador. Ninguém se sente confortável quando vê no espelho da sua consciência, o pior de si mesmo, que precisa de ser mudado. Esse é um grande desafio.

Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice” 1 Coríntios 11:28, ou seja, Deus tem demandas para aqueles que desejam ter comunhão real com Ele. E essas demandas não têm nada a ver com medo e superstições religiosas, mas com o entendimento moral da sua vontade.

O engano de Eva e a queda do homem estão directamente relacionados com o não entendimento e da não compreensão das demandas e da palavra de Deus. Eva não creu nas palavras do Senhor, não teve fé, e sem fé não se pode ter vida espiritual.

Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé.” Romanos 1:17