quarta-feira, 12 de abril de 2017
O Primeiro Homicídio
abril 12, 2017
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Génesis 4
Caim
e Abel
Vamos
meditar na história de Caim e Abel, os dois filhos que Adão e Eva
tiveram após a queda. Sim, eles tiveram outros filhos (Génesis
5:4). Não sabemos quantos e nem o nome dos outros. Mas, a Bíblia
chama-nos a atenção para estes dois, para nos trazer algumas
lições, principalmente sobre aquela verdade de que já falamos; por
ser o primeiro da raça humana, o que Adão fez atingiu toda a
humanidade. O ser humano já nasce com “o pecado” dentro dele.
Mas
esta história também nos mostra que, mesmo ao nascer pecadores, o
homem pode contar com a misericórdia de Deus e, através dela ser
uma pessoa “justa”, como foi Abel.
O
Favorito
Vemos
neste texto a alegria de Eva ao dar a luz a Caim: “Com a ajuda de
Deus o Senhor tive um filho homem”, disse Ela. Talvez até ali eles
só haviam gerado filhas.
Mas
finalmente um homem nasceu. Acredito que Adão e Eva, como todos os
pais, esperavam um futuro glorioso para aquele menino. Se eles
soubessem…
Depois
de Caim, nasceu Abel. A Bíblia não mostra nem uma expressão de
alegria por parte dos pais em relação ao nascimento de Abel, como
aconteceu com Caim. Será que já estava a começar um certo
favoritismo por Caim? Parece que sim! Se os pais soubessem os males
causados pelo favoritismo não deixariam que isso acontecesse nos
seus lares e aprenderiam a distribuir o seu amor igualmente entre os
filhos.
Muito
Diferentes
Diz
a Bíblia que, quando cresceram, Abel tornou-se pastor de ovelhas e
Caim agricultor.
Mas
a grande diferença entre os dois não era somente a profissão. A
maior diferença entre os dois estava no carácter. A Palavra de Deus
diz que Abel era um homem bom e correto (1Jo 3.12), enquanto que Caim
diz a Bíblia que ele era do maligno, pois as suas obras eram más.
Que coisa não?! O Favorito dos pais tinha um mau carácter. Hoje
vemos o mesmo acontecer. Muitos filhos em que os pais depositam a sua
esperança e confiança, mais tarde são vistos em páginas de
jornais, por terem seguido o caminho de Caim.
Eu
gosto muito de dizer que os pais devem sempre pedir a Deus que lhes
abra os olhos para que eles possam ver o que vai no coração dos
seus filhos, pois muitas vezes o amor paterno pode nos cegar. É
melhor pedir isso, a tempo de podermos fazer alguma coisa, do que ter
uma surpresa desagradável no futuro.
As
Ofertas para Deus
Um
dia os dois irmãos vieram trazer ofertas perante Deus. Da oferta de
Caim está escrito que ele trouxe “Alguns frutos da terra”. Só!
A Bíblia não salienta nada de especial na oferta de Caim.
Já
da oferta de Abel, está escrito que ele matou o primeiro carneiro do
seu rebanho e ofereceu ao Senhor as melhores partes. Era uma maneira
de o Espírito Santo mostrar a diferença da atitude dos dois em
relação a Deus. Por que será que não está escrito que Caim
apanhou dos melhores frutos da terra e ofereceu ao Senhor? Porque
provavelmente ele não fez isso! Se não ofereceu ao Senhor o melhor
dos frutos da terra, então o melhor ficou para ele mesmo.
Diz
a Bíblia que Deus ficou contente com Abel em primeiro lugar e com a
sua oferta em segundo. E que rejeitou primeiro Caim e depois a sua
oferta. Assim é Deus! Primeiro olha para quem está a ofertar, para
o seu comportamento, intenção e carácter. Depois ele olha para a
oferta, que na verdade é uma expressão do interior do que oferta. A
verdade é que Deus aceita umas ofertas e rejeita outras. Depende é
de quem está a ofertar.
Não
sabemos qual foi o sinal que Deus deu para mostrar o seu agrado pela
oferta de Abel e desagrado pela de Caim. Talvez Ele fez com que
descesse fogo dos céus e consumisse a oferta que ele estava
aceitando. Talvez…
Sabemos
de uma coisa, Deus sempre dá um jeito de mostrar a sua aprovação
ou reprovação às nossas obras.
A
Reacção
Quando
viu que a sua oferta foi rejeitada, qual foi a reacção de Caim? Diz
a Bíblia que ele irou-se. Pois é! Ao invés de procurar saber do
por quê da rejeição de Deus à sua oferta, para que pudesse
melhorar, ele irou-se. Não há outra forma, o que está no coração
acaba por aparecer no nosso olhar, no nosso falar, na nossa postura.
Deus
disse a Caim: “Porque está com raiva, porque andas chateado?”.
Esse “Andas chateado” mostra que aquilo não foi algo momentâneo.
Caim deve ter ficado dias e dias com “aquela cara”. Os seus pais,
os seus irmãos devem ter perguntado a mesma coisa que Deus. E Caim
deve ter respondido o mesmo que respondeu para Deus: Nada! Não é
fácil colocar para fora os nossos maus sentimentos. Mas se queremos
ser libertos deles, devemos nomeá-los e confessá-los, pois se não
fizermos isso, estes maus sentimentos vão crescer e causar enormes
estragos nas nossas vidas.
Deus
disse a Caim o motivo da rejeição da sua oferta: “Tu agiste mal”.
Que palavra dura!
Mas
era o que Caim precisava ouvir, Deus estava a dizer a ele (e a nós)
que estava atento nele não somente quando ele vinha perante o altar
para ofertar. Os olhos de Deus o acompanhavam em todos os momentos.
Deus
o advertiu que ele deveria livrar-se daquela ira, pois ela estava a
abrir uma brecha para um pecado maior ainda. Deus disse a ele que
precisava vencer esta ira para que ela não o levasse a um pecado
maior.
É
assim que Deus faz. Como um pai amoroso ele vem para nos repreender
enquanto o pecado está a querer tomar conta de nós. Ele vem tratar
com a semente, antes que ela cresça e dê os seus frutos. Feliz
aquele que deixa Deus tratar das sementes más que estão nos nossos
corações.
Sangue
inocente Fala
Caim
não quis saber de mudar. Um dia, chamou o irmão para irem ao campo.
Isto era o pecado a tomar forma. O pecado geralmente segue este
caminho: uma situação gera um pensamento, o pensamento gera um
sentimento, o sentimento gera uma atitude, a atitude vai se
desenvolvendo até tornar-se o pecado propriamente dito. Uma vez no
campo, Caim fez o que, no seu coração já havia feito, matou Abel.
Deixou que a ira crescesse a tal ponto que, deu à luz aquilo que
vinha a gerar-se dentro dele há algum tempo.
Ele
derramou o sangue inocente do seu irmão sobre a terra e com isso ele
acabou por acrescentar mais maldição à terra. Terra esta que ele
trabalhava. O sangue inocente derramado sobre a terra faz com que ela
seja maldita. Que verdade tão assustadora! Quantos crimes já
aconteceram desde então por aqueles que seguem o caminho de Caim. O
sangue inocente derramado clama, grita por vingança. Por isso Jesus
disse a Pedro: “Guarda a tua espada”. Por que os que vivem pela
espada morrerão pela espada (Mateus
26.52).
Deus foi quem determinou isso, pois ele escuta o clamor do sangue
inocente.
Nome
entre os Grandes
Abel
foi morto, mas o seu sangue fala connosco até hoje e ele é citado
na Galeria dos Heróis da Fé (Hebreus 11.4). Todo o homem bom e
correto como Abel, nunca será esquecido por Deus e pelos homens.
Enquanto
o nome de Abel é citado entre os nomes dos grandes homens e mulheres
que agradaram a Deus, o de Caim é citado junto com aqueles que só
trouxeram maus exemplos e desgraça (Judas 11).
Qual
o caminho que queremos seguir? Entre quem queremos ser citados. A
escolha é nossa.
O Pecado e as Suas Consequências
abril 12, 2017
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O
Homem Sem Pecado
“Também
disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança… Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de
Deus o criou; homem e mulher os criou” (Génesis 1:26-27).
Intelectual, moral e fisicamente, Adão e Eva foram feitos à sua
imagem.
Deus,
que é Espírito, fez Adão como ele mesmo, quando “formou
o espírito do homem dentro dele” (Zacarias 12:1).
Mas já pensamos que Deus, à sua própria maneira, é capaz de ver,
ouvir, cheirar e falar? Pelo menos é o que sugere Salmo
115:3-8.
Os nossos atributos físicos, então, também levam algo da imagem de
Deus.
Jeová
não reteve nenhum bem da humanidade. Junto com poder e domínio, ele
preparou um paraíso para ela viver. Ele até andou e falou com o
homem numa comunhão irrestrita. Na verdade, o homem foi feito um
pouco inferior a Deus e foi coroado de glória e majestade!
O
Homem Recebeu o Poder de Escolher
“E
o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás
livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não
comerás” (Génesis 2:16-17).
Henry Morris disse: “Essa foi a prova mais simples que se possa
imaginar da postura do homem para com o seu Criador. Será que ele
‘confiaria e obedeceria’ porque ele amava aquele que mostrou
tanto amor por ele; ou será que duvidaria da bondade de Deus e se
ressentiria do controle dele, rejeitando a sua palavra e lhe
desobedecendo?” (The Genesis Record, p. 92). Para deixar clara a
necessidade de obedecer, Deus fez acompanhar as mais terríveis
consequências à sua ordem “Não
comerás.”.
“Porque”,
diz ele, “no
dia em que dela comerdes, certamente morrerás” (Génesis 2:17).
Desde o começo, o salário do pecado era a morte (Romanos
6:23).
O
Homem Escolheu o Pecado
Deus
disse: “Certamente
morrerás.”.
“Então,
a serpente disse à mulher: É certo que não morrerás.” (Génesis
3:1-4).
O diabo negou as palavras de Deus apregoando um pecado sem
consequências.
Eva
jamais pensou em perguntar-se como uma criatura inferior poderia
saber mais que Deus! Ela foi crédula o bastante para crer que
pudesse ser como Deus (um deus), conhecendo o bem e o mal apenas por
comer do fruto proibido. Então, quando ela percebeu que a árvore
era boa como fonte de alimento (a concupiscência da carne), que era
agradável aos olhos (a concupiscência dos olhos) e a tornaria sábia
(a soberba da vida), a tentação se mostrou irresistível. Com essa
artimanha de planear algo para enganá-la, o tentador conseguiu
seduzi-la.
Meu
amigo, fique atento: a velha serpente continua a enganar exactamente
da mesma forma hoje! (1
João 2:15-17)
As
Consequências do Pecado
Isaías
3:11
afirma: “Ai
do perverso! Mal lhe irá; porque a sua paga será o que as suas
próprias mãos fizeram”.
A primeira coisa que ocorreu com Adão e Eva é que os seus olhos
foram abertos e souberam que estavam nus (Génesis
3:7).
Viram nos seus corpos o potencial para o mal. A carne e o espírito
lutariam pela supremacia no seu interior, e essa guerra mataria cada
vida humana (Gálatas
5:17).
Culpados
e envergonhados, usaram folhas de figueira para cobrir a sua nudez um
do outro (Génesis
3:7).
Também, se esconderam entre as árvores da presença de Deus
(Génesis
3:8).
A presença do Senhor dos exércitos sempre traz terror aos
pecadores: eles “se
esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos
montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele
que se assenta no trono, e da ira do Cordeiro”
(Apocalipse
6:15-17).
Almas impenitentes, atenção: “Horrível
cousa é cair nas mãos do Deus vivo”
(Hebreus
10:31).
Sendo
afastados da presença de Deus, Adão e Eva, naquele dia, morreram
espiritualmente. Pensemos em tudo o que eles perderam! Eva tinha dito
no coração: “Vou ser como o Altíssimo”. Ao agir assim, ela
perdeu o direito ao esplendor do Paraíso. Decretaram-se maldições
sobre ela (3:16),
e sobre o homem (3:17-19).
Ah, como caíram os valentes!
Ao
sofrerem a morte espiritual, Adão e Eva também iniciaram o processo
de morte física: “E,
expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o
refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da
árvore da vida” (Génesis 3:24).
Por causa do pecado deles, o homem, a mulher e os filhos de todas as
épocas voltariam ao pó: “Em
Adão, todos morrem” (1 Coríntios 15:22).
“Como
no início em Adão e Eva, mais uma vez hoje as palavras de Deus são
distorcidas, pois só deveremos adorar a Deus como o nosso Senhor e
não a “santos”, “virgem Maria” e outros ídolos feitos pela
mão de homens”.
“A
fé em Deus e no nosso salvador Jesus Cristo e a superstição da
crença em “santos” ou outros ídolos feitos pela mão humana”.
“Uma
batalha entre a dedicação voluntária e consciente à vontade de
Deus e os rituais das crenças em ídolos “santos”, pelas
chamadas boas acções que nos levam a acreditar que se fizermos boas
acções iremos para o céu para estar com Deus.”
terça-feira, 11 de abril de 2017
Adão e Eva e as Roupas da Salvação
abril 11, 2017
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Logo
após o pecado do homem no Éden, Adão e Eva encontram-se expostos,
vulneráveis, humilhados e nus.
“Então
foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus;”
Génesis 3:7
E
eles tentam cobrir-se, pegam folhas de figueira e fazem uma cobertura
primitiva.
“e
coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.” Génesis
3:7
A
diferença é dramática. Adão e Eva encontram algumas folhas finas
de figueira e fazem um tipo muito fraco e primitivo de cobertura,
para esconder a sua nudez, enquanto Deus providencia vestimentas
“ideais”, feitas de couro, pele de animais, que são capazes de
protege-los do frio e das intempéries.
Enquanto
o homem buscava apenas uma forma de esconder o seu estado nu, Deus
lhe fornece roupas decentes. Enquanto o homem só não queria estar
nu em público, Deus age de forma gentil.
Apesar
da desobediência e da alienação resultante do pecado, Deus age com
ternura e cuidado para com o primeiro casal humano. Deus os veste, os
protege, Ele cuida do homem, ainda que pecador.
Hoje
há todo um mundo de vestimentas e roupas, mas tudo começou com
folhas de figueira. Foi por causa do comer do fruto proibido que o
homem e a mulher tomaram consciência da sua nudez. Mas qual seria a
natureza dessa nudez? Física ou espiritual?
Era
de se esperar que o pecado trouxesse consequências espirituais,
entretanto, vemos que Adão e Eva respondem imediatamente no nível
físico. Eles tentam cobrir os seus corpos que tinham se tornado
vulneráveis; eles ficam envergonhados e humilhados.
Mas
e sobre as suas almas? Eles buscaram cobertura, vestimentas
espirituais? Com certeza as suas almas haviam sido impactadas,
feridas e manchadas pelo pecado. Qual foi a reacção deles?
Ao
falar sobre este assunto, o rabino Soloveitchik cita o seguinte
texto:
“Regozijar-me-ei
muito no Senhor, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me
vestiu de roupas de salvação, cobriu-me com o manto de justiça,
como um noivo se adorna com turbante sacerdotal, e como a noiva que
se enfeita com as suas jóias.” Isaías 61:10
Quando
Adão e Eva pecam, eles perdem a roupa da salvação. O resultado é
a perda da protecção divina, e do senso de proximidade e intimidade
com o Criador. É a partir daí que eles se sentem nus. A reacção
deles foi de cobrir os seus corpos.
Aparentemente
eles não deram conta da vergonhosa nudez em que estavam as suas
almas. No lugar da “roupa da salvação”, que se havia dissipado,
eles tentam fazer para si mesmos uma espécie de cobertura que não
era suficiente para esconder a sua vergonha.
Deus
entra na história e lhes faz uma roupa nova, matando um animal,
derramando sangue de um inocente, para que pudesse cobrir o pecado do
homem.
“Como
dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não
sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu;”
Apocalipse 3:17
E
nós temos este mesmo senso de cobrir, de “criar roupas” e
estereótipos, numa tentativa vã de vestir as nossas próprias
almas, geralmente por meio de práticas puramente religiosas. Mas só
há uma roupa capaz de nos cobrir, e é “de cor vermelha como o
carmesim”.
Frequentemente
nós queremos cobrir a nossa nudez espiritual, por meio de
“penitências”, castigos auto impostos. O que é difícil é
aceitar que o sangue do cordeiro foi derramado para destruir a nudez
que foi iniciada lá no Éden.
Uma
vez lavados nesse sangue, ocorre uma espécie de alquimia celestial,
pois somos vestidos com tão brancas roupas, que passam a emitir luz,
a luz primordial, que estava no princípio, e que um dia encarnou
para ser a luz do mundo.
Há
uma tradição muito interessante, encontrada na Midrash:
“E
fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os
vestiu.” Génesis 3:21
Na
Torá
do rabino Meir, foi encontrado escrito “túnicas de luz”. Embora
no texto original esteja escrito ´or
עור
significando
pele ou couro, há uma semelhança notável com a palavra ohr
אור
“luz”.
E
a Midrash usa esse paralelismo para ampliar o significado das roupas
feitas por Deus, que foram dadas ao homem e à mulher após terem
pecado no princípio.
O
comentarista Rabbeinu Bahya, concorda que a Peshat – o sentido
literal do texto – é que Deus fez roupas que traziam dignidade ao
casal pecador.
Entretanto,
de acordo com o entendimento de Bahya sobre a Midrash, estas eram
como se fossem vestimentas de luz, especificamente a luz fundamental,
que foi o primeiro acto da criação por Deus – “haja luz” –
a luz que existia antes do sol e da lua.
Rabbeinu
Bahya explica que como cada peça de roupa reflecte a arte de quem a
criou, esta vestimenta, feita por Deus, também reflectia o divino. A
intenção do Criador era de que o homem vivesse eternamente. Se não
tivesse desobedecido a Deus, o homem seria imortal, como os anjos.
Comer
da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal trouxe a morte, a perda da
imortalidade, mas as roupas feitas por Deus simbolizavam uma
esperança, a promessa de que a vida eterna seria restabelecida no
futuro, mas não sem antes ser pago o preço pela redenção.
Bahya
também sugere que o homem não tinha consciência da sua nudez no
princípio, porque estava envolvido numa espécie de vestimenta
semelhante a que envolveu Moisés no Sinai, e que foi perdida com o
pecado.
Quando
Moisés desceu do monte pela segunda vez, a Torá descreve uma cena
singular:
“E
aconteceu que, descendo Moisés do monte Sinai trazia as duas tábuas
do testemunho em suas mãos, sim, quando desceu do monte, Moisés não
sabia que a pele do seu rosto resplandecia, depois que falara com
ele.” Êxodo 34:29
Rabbeinu
Bahya está aqui sugerindo que algumas vezes, as palavras ´or
“pele”, e
ohr
“luz”,
podem ser conectadas. Esta é a significância do brilho da pele do
rosto de Moisés.
A
proximidade e a intimidade que Moisés teve com Deus suscitou nele a
luz primordial, a luz que vestia o homem e a mulher no princípio, a
luz da salvação, aquela mesma que o nosso Mestre veio restaurar.
“Falou-lhes,
pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem m segue
não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” João 8:12
Moisés
pôde experimentar as roupas da salvação, sendo envolvido com a
Shekhinah
(a
divina presença),
a protecção espiritual que estava em Adão e Eva antes de terem
pecado, vestidos de luz e verdade. Mas o homem pecou, perdeu a
preciosa luz, ao ficar na escuridão deformadora do pecado.
Vivendo
o mundo pós-pecado, nós precisamos encontrar as vestimentas de luz
e verdade para as nossas almas. Na sua misericórdia, Deus olhou para
o homem com amor, e fez-lhe uma vestimenta nova.
Ao
derramar o sangue de um animal inocente para vestir o homem, já
apontava para o sacrifício vicário de Jesus, que derramou o seu
sangue inocente, para nos vestir novamente com a verdadeira luz da
salvação.
Por
isso as nossas almas se regozijam muitíssimo no Senhor, pois não
fomos abandonados, Ele nos veste com as roupas da salvação, cobriu
de uma vez por todas a nudez do pecado, nos fez íntimos, filhos de
Deus outra vez.
Adão e Eva – Mensagem do Primeiro Casamento Bíblico
abril 11, 2017
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Deus
cria todas as suas criaturas em pares – Macho e Fêmea – excepto
o homem. Somente depois que Adão é criado em solidão é que Deus
declara: “Não
é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idónea
[eizer k’negdo, em hebraico] para ele.” Génesis 2:18.
Deus
traz os animais até Adão para que ele lhes dê nomes. E nesse
processo, como já previsto, o homem não é capaz de encontrar uma
companhia pessoal, dentro do reino animal.
Deus,
então, faz com que caia sobre
Adam
אדם
[Adão]
um
sono "pesado" e forma
Chava
חַוָּה
[Eva],
de uma porção do corpo de ha-adam, de sua costela, encerrando carne
em seu lugar. Quando acorda, Adão proclama: “Esta
é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será
chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o
homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão
ambos uma carne.” Génesis 2:23-24.
O
primeiro homem agora toma consciência de que finalmente encontrou a
companhia que tanto procurava. Esta é a mensagem que a Torah nos
traz sobre o primeiro casamento bíblico.
Porém
há questões muito mais profundas nesta passagem, que parecem estar
intimamente ligadas ao sentido das palavras escolhidas pelo seu
autor. Há perguntas que podemos fazer, neste texto, que trazem
significâncias belíssimas para o amor, a união sagrada e eterna
entre dois seres.
Deus
quer aqui ensinar-nos algo realmente profundo, o real significado do
casamento bíblico, a volta ao estado original, quando Adão e Eva
formavam um só corpo, uma só carne.
É
interessante ver que um Deus Todo Poderoso não pode chegar a
perceções atrasadas. Obviamente que Deus sabe desde o princípio
que o homem precisava de companhia. Porque, então, Deus não criou
Eva, ao mesmo tempo que Adão?
O
termo em hebraico que Deus usa para descrever a primeira mulher, uma
ajudadora idónea,
[em hebraico eizer
k’negdo],
é também profundamente intrigante, e até mesmo Auto contraditório.
A
palavra eizer
significa ajuda,
enquanto que k’negdo
– que vem da raiz hebraica neged
– significa em
oposição.
Assim,
porque Deus criaria uma “ajuda em oposição” a Adão? Qual a
mensagem que estas palavras nos querem passar, no que diz respeito à
parceria estabelecida entre o homem e a mulher? E finalmente, porque
Deus põe os animais diante de Adão para serem nomeados, justamente
neste contexto de percepção da solidão do homem?
Deus
sabe que Adão não irá encontrar companhia no reino animal. O que
Ele quer que aprendamos com isso, qual seria então o propósito
deste exercício?
Há
numerosas abordagens sobre o isolamento original do homem. Diversos
autores já se debruçaram sobre essa matéria, mas um dos estudos
dos que mais possuem autoridade sobre o assunto afirma, como diz o
Talmud, que Deus originalmente criou o homem d’yo
partzuf panim, “com duas faces”.
Isto
é, Eva estava desde o princípio, dentro de Adão, a aguardar o
momento de ser formada. Quando Deus cria Eva, Ele efectivamente
separa dois seres, que originalmente eram apenas um. Isso nos leva a
uma idéia profunda, extraída daquilo que parece ser uma simples
história:
Adão
e Eva eram, na sua forma original, apenas um. Quando eles se reúnem
e se casam, eles retornam ao seu estado original, unificando-se
novamente, voltando a ser “uma só carne”. Todo o casamento, toda
a união entre homem e mulher, deste ponto de vista, é efectivamente
um retorno ao significado original da vida.
Outra
fascinante lição moral extraída pela Mishna (a parte mais antiga
da tradição oral), aborda a solidão original do homem. O modo da
criação de Adão pode ser entendido como um processo educacional
sobre ele mesmo e sobre a sua forma de se relacionar com os outros.
“E
Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o
animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idónea.”
Génesis 2:20.
Diferente
das outras criaturas, o homem precisa aprender o valor da companhia e
da verdadeira amizade. Isto porque a qualidade da companhia humana se
diferencia de todos os tipos de relacionamentos estabelecidos no
mundo ao redor de nós.
Os
nossos relacionamentos têm possibilidades de um aprofundamento sem
paralelos. Nós temos a habilidade de transcender o apego puramente
físico e ir para além, estabelecendo verdadeiras ligações
emocionais, que podem enriquecer e transformar as nossas vidas.
Há
uma ressalva,
porém, de que o estabelecimento dessas ligações é baseado no
aprendizado, no sacrifício e no assumir de riscos.
Primeiramente,
os relacionamentos humanos são baseados no compartilhar, e
compartilhar não se torna em prática de uma forma fácil ou
natural. Uma criança tem de ser ensinada a compartilhar, a abrir mão
de um pouquinho do seu espaço e do seu “Eu”.
E
o mais difícil é a vulnerabilidade inerente à proximidade do
contacto humano. Quanto mais próximos nos tornamos uns dos outros,
maior se torna o potencial para conflitos. Ninguém
pode nos ferir tão profundamente como aqueles que são próximos de
nós, e que nos conhecem bem.
Deus
cria Adão sozinho, porque ele precisava entender que a solidão não
era boa. Ele precisava sentir o vazio causado pelo seu isolamento.
Somente com o sentimento desse vazio, é que Adão pode aprender a
necessidade do compartilhar com o outro.
Adão
tem de aprender que a escolha do relacionamento humano, com todas as
suas consequências e conflitos e sacrifícios, é melhor do que uma
vida de solidão e isolamento.
Deus,
assim, traz os animais para que o homem lhes desse nomes. Nomeá-los
requeria uma maior compreensão da natureza intrínseca
dos seres. Adão vê que cada animal tem a sua companhia
correspondente. Ele também percebe que o tipo de relacionamento que
via no reino animal, não era adequado para preencher as suas
necessidades.
Adão
anda em busca de algo muito maior e muito mais profundo. Somente
quando Adão chega a este nível de entendimento e percepção, é
que Deus procede com a criação de Eva. A narrativa da criação de
Adão e Eva firma-se como uma lição monumental concernente
à proximidade das relações humanas.
Quando
entendemos e estamos dispostos a aceitar o trabalho e o sacrifício
necessário ao estabelecimento de um profundo relacionamento, quando
criamos relacionamentos baseados na confiança mútua, aí que
atingimos o tipo de companhia que é única para a espécie humana: A
santidade do casamento.
É
interessante também analisar a contradição implícita da frase
Ajudadora
Idónea – eizer k’negdo, ajuda em oposição.
Uma
das abordagens para eizer
k’negdo,
sugere, se nós seguirmos a interpretação da pashut
pshat
(o significado simples e literal), que esta é uma, de muitas frases
que na Torah parecem contraditórias, mas que quando propriamente
entendidas, reflectem significantes pensamentos filosóficos e reais.
A
frase, tomada como um todo, brilhantemente reflecte o delicado
equilíbrio que é essencial a um casamento saudável. No casamento,
cada parte deve permanecer em íntima comunhão, entretanto, não se
pode perder a individualidade que é essencial a cada ser.
Marido
e mulher tem que aprender a assistir e ajudar um ao outro de forma
cooperativa, mas sem um se sobrepor ao outro. Uma “eizer k’negdo”,
“ajuda em oposição”, é aquela que tem uma visão de uma
perspectiva oposta, mas que vem para colaborar.
É
sempre muito ajudador
ter uma perspectiva diferente das coisas. E o casal tem de aprender a
aproveitar esta percepção “oposta” que cada um pode ter do
mesmo tema, para poder formar uma opinião comum, não unânime, mas
que mostre que há mais de uma forma de se fazer a mesma coisa, que
“há mais de um caminho para se chegar até determinado lugar”.
Essa
visão dualista, de duas perspectivas diferentes que um casal pode
ter, é uma arma poderosíssima, uma ajuda sem precedentes se for
compreendida e aproveitada.
Deus
fez a mulher não para concordar cegamente com o homem, mas para
contribuir para o bem da relação, ao fornecer uma visão de uma
perspectiva “oposta”
das coisas, como fonte de mais de uma interpretação do mundo, uma
visão de outro “ângulo”.
O
Rabino Rashi, imediatamente notou que a observação da tradição
oral, para estas duas palavras, pode encerrar também duas escolhas.
As palavras eizer (ajuda) e k’negdo (oposição) podem ser
mutuamente exclusivas.
Quando
o homem e a mulher têm sucesso em construir um casamento, eles vivem
num mundo de eizer, de ajuda mútua. Por outro lado, se eles falham,
então viverão num mundo de k’negdo, de oposição.
Este
mesmo sentimento está presente nos ensinamentos do Antigo
Testamento, para as palavras ish,
“homem” e
isha,
“mulher”.
Na escrita em hebraico, estas duas palavras diferem uma da outra por
apenas duas letras: um
yod
יe
um
hei
ה,
letras que usamos para escrever o nome de Deus.
Isto
sugere que quando
Deus está presente num casamento, o homem e a mulher também estão.
Mas se retirarmos de ish
e
isha
as letras do nome de Deus, fica a restar uma combinação (as letras
aleph e shin) onde lemos a palavra aish
אש
(incêndio).
Quando
Deus não está presente numa relação, ela torna-se potencialmente
explosiva.
Duas
simples e aparentemente palavras contraditórias, faladas por Deus
para descrever o primeiro casamento, aplicam-se para resumir o
delicado equilíbrio que se encontra em casamentos saudáveis.
Enquanto
que muitas pessoas buscam cada vez mais envolvimentos superficiais, o
casamento fala de relacionamentos profundos, que só podem ocorrer
quando Deus é este factor muito forte de equilíbrio entre o homem e
a mulher.
A Primeira Mulher - Eva
abril 11, 2017
|
O
nome Eva significa “vivente”; pelo visto, palavra aparentada com
o verbo hebraico hhayáh,
“viver”. A primeira e última mulher das obras criativas
terrestres de Deus, de que há relato.
O
Criador sabia que não era bom que o homem continuasse só. Todavia,
antes de passar a criar a mulher, Deus trouxe ao homem diversos
animais da terra, bem como criaturas voadoras. Adão deu-lhes nomes,
mas não achou nenhuma ajudadora entre eles. Foi então que Deus fez
com que Adão caísse num profundo sono, removeu uma costela do seu
lado, e, depois de ter fechado a carne, construiu uma mulher da
costela retirada do homem. Sem dúvida, informado por revelação
directa de Deus, seu Criador e Pai, de como a mulher veio à
existência, Adão teve prazer em aceitá-la como sua esposa, ao
dizer: “Esta, por fim, é osso dos meus ossos e carne da minha
carne”, conforme até os seus próprios sentidos lhe evidenciavam.
Adão chamou-a sua esposa, o seu complemento, de ‘ishsháh
(mulher, ou, literalmente, homem feminino), “porque do homem foi
esta tomada”. (Génesis 2:18-23). Daí, Deus proferiu a sua bênção
paternal sobre os dois: “Sede fecundos e tornai-vos muitos, e
enchei a terra, e sujeitai-a”. Deviam ter em sujeição também a
criação animal. (Génesis 1:28). A mulher, por ser obra das mãos
de Deus, era perfeitamente adequada para ser complemento do seu
marido, Adão, e também para ser mãe.
1.
Engano e Desobediência.
Veio
então o dia em que a mulher, quando não estava na companhia do seu
marido, encontrou-se perto da árvore do conhecimento do Bem e do
Mal. Ali, uma cautelosa e humilde serpente, usada por um espírito
invisível como porta-voz visível, perguntou com aparente inocência:
“É realmente assim que Deus disse, que não deveis comer de toda
árvore do jardim?” A mulher respondeu correctamente, sem dúvida
instruída assim pelo seu marido, o qual era de uma só carne com
ela.
Mas,
quando a serpente contradisse a Deus e declarou que a violação da
ordem de Deus resultaria em ser igual a Deus, sabendo o Bem e o Mal,
a mulher começou a encarar a árvore dum ponto de vista diferente.
Ora, “a árvore era boa para alimento e… algo para os olhos
anelarem, sim, a árvore era desejável para se contemplar”. Além
disso, a serpente dissera que Eva seria como Deus, se comesse da
árvore. (Vejamos 1Jo
2:16).
Totalmente enganada pela serpente, e com o forte desejo das
perspectivas relacionadas com o comer do fruto proibido, ela
tornou-se transgressora da lei de Deus. (1Ti
2:14).
Como tal, chegou-se então ao marido e induziu-o a se juntar a ela na
desobediência a Deus. Adão escutou a voz da sua esposa. – Génesis
3:1-6.
O
efeito imediato da transgressão deles foi a vergonha. De modo que
usaram folhas de figueira, a fim de fazer para si coberturas para os
lombos. Tanto Adão como a sua esposa foram esconder-se entre as
árvores do jardim quando ouviram a voz de Deus. Quando directamente
interrogada por Deus sobre o que tinha feito, a mulher declarou que
ela havia comido por ter sido enganada pela serpente. Ao proferir
sentença sobre ela, Deus indicou que a gravidez e o parto seriam
acompanhados por maior dor; ela teria desejo ardente do seu marido e
ele a dominaria. – Génesis
3:7-13, 16.
Depois
de terem violado a lei de Deus, Adão, segundo se relata, chamou a
sua esposa de Eva, “porque ela havia de tornar-se a mãe de todos
os viventes”. (Génesis
3:20).
Antes de expulsar Adão e Eva do jardim do Éden para enfrentar as
dificuldades do solo amaldiçoado, Deus lhes mostrou benignidade
imerecida por prover-lhes vestes compridas de peles. – Génesis
3:21.
2.
Um filho “com o auxílio de Deus”.
Por
ocasião do nascimento do seu primeiro filho, Caim, fora do Paraíso,
Eva exclamou: “Produzi um homem com o auxílio de Deus.” (Génesis
4:1).
Eva é a primeira pessoa de que se relata ter usado o nome de Deus,
ao indicar que o nome Deus era conhecido aos primeiros humanos. Mais
tarde, ela deu à luz Abel, bem como outros filhos e filhas. Quando
Adão tinha 130 anos de idade, Eva deu à luz um filho a quem chamou
de Sete, ao dizer: “Deus designou outro descendente [lit.:semente]
em lugar de Abel, visto que Caim o matou.” Ela podia correctamente
expressar-se assim tanto por ocasião do nascimento de Caim como o de
Sete, porque Deus dera a ela e a Adão as faculdades reprodutivas, e,
em razão da benignidade imerecida de Deus, de não os matar
imediatamente quando transgrediram a ordem Dele, ela pôde dar à
luz. Com o nascimento de Sete encerra o registo de Génesis referente
a Eva. – Génesis
4:25; 5:3, 4.
3.
Personagem Real
Que
Eva realmente viveu e não era uma personagem de ficção é
confirmado pelo próprio Jesus Cristo. Quando interrogado pelos
fariseus a respeito do divórcio, Jesus chamou à atenção o relato
de Génesis relativo à criação de macho e fêmea. (Mateus 19:3-6).
Além disso, há as palavras de Paulo dirigidas aos Coríntios,
expressando temor de que a mente deles fosse de algum modo
corrompida, “assim como a serpente seduziu Eva pela sua astúcia”.
(2Co 11:3). Daí, ao considerar o lugar correto da mulher na
congregação cristã, Paulo apresenta como motivo de não se
permitir “que a mulher ensine ou exerça autoridade sobre o homem”
o facto de que Adão foi formado primeiro, e que ele não foi
enganado, “mas a mulher foi totalmente enganada e veio a estar em
transgressão”. – 1Ti 2:12-14.
A Origem da Queda do Homem – Eva, a Serpente e o Fruto Proibido
abril 11, 2017
|
A
Origem da Queda do Homem
“E
ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim
comerás livremente,
Mas
da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás;
porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” Génesis
2:16-17.
“E
disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim
comeremos, Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse
Deus:
Não
comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais (do
hebraico pen-namut פן־נמות)"
Génesis 3:2-3.
Sempre
que o Génesis repete uma conversação ou um evento, é motivo para
vermos uma sinalização importante no texto. Tendo em consideração
que tudo o que foi escrito na Bíblia tem um propósito, podemos
acreditar que existe uma camada de interpretação muito poderosa por
detrás das redundâncias bíblicas.
Assim,
se compararmos a ordem que Deus deu a Adão, para não comer da
Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, com a resposta que Eva deu à
serpente, teremos bons e ténues indícios da origem da queda do
homem, que nos trazem importantes ensinamentos e significantes
mensagens.
A
Torah regista duas versões do mandamento divino dado ao homem.
Primeiramente, encontramos este mandamento na sua forma original,
quando Adão o recebeu directamente do Criador. Mais tarde, na
história da criação, Eva o repete para a serpente, revelando
algumas inconsistências no seu entendimento.
Com
isso, qual seria a necessidade dessas duas versões serem registadas
com todos os detalhes? Não seria muito mais simples a Torah afirmar
“e
Eva repetiu o mandamento divino para a serpente”?
Quando
as duas versões do mandamento são comparadas, surge uma série de
impressionantes variações:
|
O
Mandamento Divino e a Versão de Eva:
|
|
|
Deus:
|
Eva:
|
|
De
toda a árvore do jardim comerás livremente
|
Do
fruto das árvores do jardim comeremos
|
|
Mas
da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás
|
Mas
do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não
comereis dele, nem nele tocareis
|
|
porque
no dia em que dela comeres, certamente morrerás
|
para
que não morrais (do
hebraico pen-namut פן־נמות)
|
|
|
|
Não
temos neste estudo, nenhuma intenção de influenciar uma opinião
injusta em relação à Eva, mas devemos notar nesta passagem que
houve uma quebra na comunicação entre Deus e o homem, onde não
está muito claro em que altura dos acontecimentos possa ter
ocorrido.
Deus
originalmente ordenou a Adão, com relação à Árvore do
Conhecimento do Bem e do Mal, antes da criação de Eva. É de se
assumir que foi Adão quem instruiu a mulher sobre o mandamento
divino. A Torah deixa um tanto vago esse processo de comunicação.
Em que ponto se dá a incompreensão da palavra de Deus?
Foi
Adão quem não compreendeu a ordem divina? Ou ele não conseguiu
passá-la adequadamente a Eva? Ou foi Eva quem falhou em entender o
significado moral das palavras do Criador?
Ao
não esclarecer o ponto onde há esse ruído na comunicação, a
Torah transmite uma lição adicional. A comunicação é ao mesmo
tempo uma importante e delicada tarefa. Nós devemos ser precavidos
com as mensagens que damos e recebemos, com as palavras que saem da
nossa boca.
Nehama
Leibowitz, na sua marcante obra, Studies
in Bereishit (Estudos em Génesis),
pontua magnificamente que Eva comete o erro trágico de acentuar a
parte negativa da mensagem divina, e de negar a positiva. Deus
permitia que Adão e Eva comessem de todas as árvores do jardim.
Aos
olhos de Eva, porém, esta permissão extensiva era muito pouco.
Existe uma árvore “que está no meio do jardim”, que permanece
além do seu alcance. Não é somente proibido comer dela, como
também tocá-la (proibição inventada por ela mesma ou por Adão).
O
homem falha quando não aprecia, nem percebe a vantagem do vasto e
maravilhoso mundo que está à sua disposição. Quando damos a nossa
atenção somente àquilo que é proibido, ou que permanece longe do
nosso alcance, aí é que caímos na armadilha reflectida neste
texto.
A
serpente, na sua fala, conduz justamente a conversa com Eva nesta
direcção, para fazê-la ver apenas aquilo que não podia fazer ou
possuir. A parte da mensagem fabricada por Eva, “nem
nele tocareis”,
era a acentuação do negativo.
Logo
que Eva “tomou
do seu fruto”,
e vendo que nada lhe havia acontecido (pois Deus nunca tinha falado
em morte por se tocar naquele fruto), então prossegue e consuma o
acto, comendo-o.
Este
evento, como diz a tradição oral, confirma o dito do rei Salomão:
“Não
acrescente nada às palavras de Deus!”
Ainda,
ao examinar todas as diferenças entre as versões de Eva e aquela
ouvida por Adão no princípio, no que se refere à Árvore do
Conhecimento do Bem e do Mal, outra grande diferença começa a vir à
tona.
O
mandamento repetido por Eva à serpente, é mudado no coração da
sua natureza moral. A intenção original de Deus parece ser perdida
nas palavras da primeira mulher. Deus especificamente refere-se à
árvore como “a
Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”.
Eva
expressa-se de forma bem diferente. Para ela, não existia mais uma
“Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”, mas simplesmente uma
“árvore
que está no meio do jardim”.
No seu ponto de vista, Deus arbitrariamente tinha plantado uma árvore
perigosa no jardim do Éden, que não parecia ser diferente das
outras, mas ainda assim o seu fruto era proibido.
Esta
conclusão dá-se pela falta de qualquer indicação da natureza
daquela árvore, nas palavras de Eva. Não reconhecendo que era a
Árvore que tinha capacidade de transmitir o conhecimento do bem e do
mal, Eva ignora que Deus tenha os seus motivos para a proibição.
E
mais importante ainda, ela não entende que a proibição era uma
demanda de Deus sobre o comportamento humano, e não um aviso sobre
uma árvore cujos frutos eram venenosos. Ela prefere mais acreditar
que o perigo é arbitrário, criado por um “Deus caprichoso”, do
que confrontar a realidade de uma “Deidade que pensa” e que faz
demandas ao seu comportamento.
E
isto é reflectido também nas outras duas maiores distorções da
versão de Eva da proibição. “Não
podemos comer da árvore, apenas. Não podemos até mesmo tocá-la”.
A árvore é “tão perigosa que devemos evitá-la a qualquer
custo”.
De
acordo com a tradição oral (a Midrash), a serpente vê nisso, uma
abertura, e a usa contra a mulher, demonstrando que não havia tanto
perigo assim na Árvore do Conhecimento. Uma vez que o perigo
desaparece na mente de Eva, então não havia mais motivo para não
comer do fruto proibido.
O
que começou como um mandamento racional e moral, torna-se, na mente
de Eva, em medo supersticioso. Quando a superstição e o medo se
vão, a proibição juntamente desaparece.
A
evidência mais profunda de que Eva entendia a Árvore como sendo
perigosa, pode ser vista, de acordo com o rabino espanhol Rambam
(Moisés Maimônides, 1135-1204), no verso seguinte:
“E
viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável
aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento” Génesis
3:6.
Porque,
questiona Rambam, a Torah precisava dizer que Eva viu que a Árvore
era atraente em todos esses níveis? Que diferença isso faria?
O
Génesis está a indicar que Eva, originalmente, pensava que o fruto
da Árvore do Conhecimento era venenoso. Quando ela vê que
aparentemente não era, que ao invés, parecia desejável, ela
prossegue e come dele.
Ela
por não entender as significâncias que estavam na ordem divina,
começa a fabricar os seus próprios conceitos e conjecturas, numa
tentativa vã, a achar que os motivos de Deus eram aparentemente sem
sentido. Mas os caminhos de Deus são profundos demais para o
intelecto humano tentar decifrá-los.
“Porque
assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os
meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus
pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.” Isaías 55:9.
A
descrição da possível consequência do comer do fruto da Árvore
do Conhecimento do Bem e do Mal, por Eva, é também significante.
Deus disse “porque
no dia em que dela comeres, certamente morrerás”.
Eva simplesmente afirma, “para
que não morrais (pen-namut
פן־נמות)".
Deus
define a morte como uma consequência moral do acto de se comer do
fruto proibido (consequência moral da desobediência à palavra de
Deus). Eva via a morte como um potencial e possível perigo, mais do
que como uma consequência moral por ter desobedecido a Deus.
As
raízes do pecado estavam presentes no jardim do Éden. Do momento em
diante que Eva fala com a serpente, uma guerra é iniciada. Era a
luta entre a fé
e a superstição,
a batalha entre a dedicação voluntária e consciente à vontade de
Deus e o ritual cheio de proibições automatizadas, que não chegam
ao entendimento nem à realização da consciência humana.
Esta
é a luta entre o que Deus quer de nós e aquilo que nós
queremos-lhe oferecer. É uma batalha que vem a acontecer através
dos tempos de todas as gerações, o homem não compreende o que Deus
deseja de nós.
“Ouvindo
alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e
arrebata o que foi semeado no seu coração” Mateus 13:19.
Deus
está claramente, por toda a Bíblia, a dizer, a afirmar que o que
ele quer é nos ter em possessão eterna, Deus quer a nós mesmos,
todo o nosso ser, toda a nossa alma. Repetidamente, meio que
amedrontados com tamanha demanda, nós tentamos oferecer-lhe alguma
outra coisa.
Foi
assim com Caim e Abel, e com as suas ofertas. Deus não aceitou a
oferta de Caim, não por causa da oferta em si, mas por causa do
próprio Caim, da sua atitude de querer seduzir a Deus pela beleza de
um altar multicolorido. A intenção do coração de Caim não era
boa.
Deus
estava mais interessado no próprio Caim do que na sua oferta. Mas
Caim prefere matar o seu irmão Abel do que se confrontar consigo
mesmo, num exame da sua própria consciência, para reflectir as suas
intenções e vontades, e se voltar para Deus de todo o coração,
com todas as suas forças, com sinceridade.
Para
Caim, era muito mais fácil fazer uma oferenda linda! Mas Deus não
quer oferendas, Deus quer o ser humano por completo!
Séculos
depois, a recém-nascida nação Israelita está aos pés do monte
Sinai. A grandeza da revelação divina é manchada pelo pecado ao
envolver a adoração ao bezerro de ouro. Um comportamento difícil
de se entender. Como pode um povo que estava na presença do Deus
vivo, ao ver a sua majestade e poder, cometer tamanho acto de
idolatria?
Uma
breve análise da passagem do bezerro de ouro vai nos ajudar a
compreender o engano de Eva, e a natureza da sua queda.
A
adoração ao bezerro de ouro não acontece em um “vácuo”, de
forma súbita, nem de uma hora para a outra. É na verdade, a
continuidade de um padrão de comportamento estabelecido no momento
que a revelação se inicia.
Quando
Deus se revela ao seu povo, eles ao invés de desejarem uma
proximidade maior com Ele, respondem ao Seu chamado com uma insólita
regressão.
“E
todo o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o sonido da buzina, e
o monte fumegando; e o povo, vendo isso retirou-se e pôs-se de
longe. E disseram a Moisés: Fala tu connosco, e ouviremos: e não
fale Deus connosco, para que não morramos [pen-namut
פן־נמות]”
Êxodo 20:18-19.
Note
que a frase pen-namut
פן־נמות,
“para
que não morramos”,
é exactamente a mesma usada anteriormente por Eva quando descrevia,
para a serpente, as potenciais consequências de se comer do fruto
proibido. Como podemos perceber, esta frase indica o medo de um
iminente e arbitrário perigo.
A
reacção dos filhos de Israel contrasta profundamente com a
disposição que tiveram algumas semanas mais cedo, após a
destruição do exército egípcio no Mar Vermelho. Lá, quando
estavam às margens do Mar Vermelho, a revelação do poder de Deus
foi recebida com canções, danças e alegrias; não com medo ou
querendo recuar.
E
porque então, eles reagem de uma forma tão diferente agora nesta
passagem do Sinai?
A
resposta está encravada na monumental diferença entre estes dois
eventos: A mensagem do Mar Vermelho é “Deus
cuidará de vós”.
Já a mensagem do Sinai é “Deus
requer algo de vós”.
Defrontados
com demandas sobre o seu comportamento, o povo busca mais pelo
conforto pessoal do que pelo confronto por si mesmo. Eles
desesperadamente tentam se distanciar de Deus e das suas demandas, ao
pedir que Moisés falasse com eles, no lugar de Deus.
E
quando Moisés demora, além das expectativas, para descer do monte
Sinai, o medo de que Deus voltasse a fazer demandas, ao falar
directamente ao povo, se torna esmagador. O bezerro de ouro é criado
não para substituir Deus, mas para substituir Moisés, e servir como
intermediário entre a nação Israelita e Deus. Assim
como hoje arranjamos intermediários, “virgem Maria e os outros
santos” entre os homens e Deus.
Dessa
forma, os encargos de uma comunicação próxima e directa com o
divino podiam ser evitados. Tragicamente, a nação Judaica caiu na
mesma armadilha, estabelecida primeiramente no jardim do Éden.
Muitas
vezes não compreendemos a vontade de Deus, expressa na sua palavra.
E partimos para uma religiosidade extremada, quem sabe cheia de
superstições e medos. Mas o medo falha em nos manter longe do
pecado, isso já foi demonstrado diversas vezes na história da
humanidade.
O
que realmente pode nos ajudar a continuar pelo caminho da rectidão,
é não outro, senão o entendimento e a compreensão da palavra de
Deus. E a palavra nos impele a uma reflexão profunda, num verdadeiro
conforto em nós mesmos, para um auto-exame da nossa consciência.
Para
descobrirmos, enfrentarmos e corrigirmos as nossas falhas de
carácter. Com certeza temos muitas. Mas mudar a nossa trajectória
de vida, melhorar, buscar uma nova prática de vida dá trabalho e
exige esforço. Razão pela qual muitos desistem de o fazer.
Corrigir,
examinar aquilo que mais nos desafia em nós mesmos é muito
assustador. Ninguém se sente confortável quando vê no espelho da
sua consciência, o pior de si mesmo, que precisa de ser mudado. Esse
é um grande desafio.
“Examine-se,
pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste
cálice” 1 Coríntios 11:28,
ou seja, Deus tem demandas para aqueles que desejam ter comunhão
real com Ele. E essas demandas não têm nada a ver com medo e
superstições religiosas, mas com o entendimento moral da sua
vontade.
O
engano de Eva e a queda do homem estão directamente relacionados com
o não entendimento e da não compreensão das demandas e da palavra
de Deus. Eva não creu nas palavras do Senhor, não teve fé, e sem
fé não se pode ter vida espiritual.
“Porque
nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está
escrito: Mas o justo viverá pela fé.” Romanos 1:17
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